Diário de um Louco

O fantástico e o real em Gógol

Resenha: Diário de um louco de Nikolai Gógol
22 de junho de 2018 Marcello Mello

Nikolai Gógol é uma das principais figuras estreantes na “nova prosa russa”. Seus textos são sátiras sociais em que o fantástico e o real se fundem constantemente. O autor é influente até os dias de hoje. O Diário de um louco e outros de seus textos contribuíram para a formação de Dostoiévski e Vladimir Nabokov, expoentes da literatura universal.

 

 

 

Diário de um louco – O fantástico e o real em Gógol

Autor foi umas das figuras mais representativas da Nova Prosa Russa; sua linguagem simples driblou a censura e preservou a crítica ao costume “antinatural” de sua época

 

Imagem ilustrativa da capa e contra capa do livro - O Capote e Outras Historias de Nikolai Gogol, publicado pela Editora 34 - Livro no qual foi extraído o conto - Diario de um Louco - cujo texto baseia essa resenha.

(Diário de um Louco de Nikolai Gógol – ADQUIRA O SEU)

 

Nikolai Gógol é um dos mais renomados escritores de todos os tempos. Sua obra é influente até os dias de hoje. Talvez o que mais agrade em seus textos seja o despojamento da linguagem.

É constantemente encontrável em sua antologia uma irreverência quanto às construções de suas frases e períodos. Uma curiosidade sobre o autor: ele era uma criança notável por suas atuações em teatros, quando ainda era estudante.

Ele pretendia, antes, ser ator em vez de escritor. Porém, a argúcia do autor de o Capote, Diário de um louco e o Retrato, ao desvendar nas praxes de todas as instâncias sociais os fenômenos que sublimam de seus costumes, tornou-o sensível à escrita.

 

A Rússia de Nicolau I, no século XIX, foi celeiro de grandes escritores. Nessa época, vivia-se numa sociedade de império. Todos eles se esforçaram para driblar o entrave da censura. O texto de Gógol, velado por um humor sofisticado, dá aos leitores incautos uma camada de verniz sobre a profundidade de seu conteúdo. A polêmica é quase alegórica em sua obra. A narrativa de seus personagens não tem floreios. E por vezes confundem-se elementos fantásticos com críticas contundentes à burocracia, à corporação e à elite generalícia.

 

As circunstâncias são registradas com tom de leveza – tem cor, cheiro, o texto é sinestésico. Porém, é possível vislumbrar um perfil social muito realístico, retratado em contos, peças de teatro e romances. Situações, cujos fluxos de consciência dos personagens são extremamente febris, como em Dostoievski, metamorfoseariam na “planta de sua mão”, descartando o peso ordinário das palavras, abstraindo apenas a sua leveza. É como se os textos fossem encobertos por uma fina película, a formar uma camada sutil, em cuja primeira leitura, as ideias propostas parecessem perfunctórias.

 

O papel popular de toda a sua obra é extremamente relevante para contextualizarmos o pensamento de uma época. A dimensão de toda a palavra deitada ao papel transcende as páginas, a brochura e a capa do livro e se universaliza. Ou seja, atribui-se o que foi escrito por ele a todo indivíduo oriundo de qualquer parte do mundo.

Porque é o tom, aparentemente, superficial – o dom ao desenvolver uma narrativa que seja escoimada de toda arrogância acadêmica e literária – que nos aproxima (os leitores) de seus textos. A linguagem, como Gógol a entende, faz-se democrática; ele a torna irrestrita, como se conversássemos com o objeto lido (o livro); afinal, literatura não está circunscrita apenas ao bacharelado.

Isso demonstra toda a importância de seu discurso quanto à emissão da mensagem pela escolha do registro e forma populares e simples. As situações, por vezes complexas e até difíceis de se deglutirem, são contadas com toda a delicadeza que se deve atribuir a uma conversa de botequim (no Brasil) ou durante uma viagem de trem, ou num café (na Rússia).

 

Por fim, a coerência – vítrea – é mais uma prova de sua sofisticação como escritor. O humor, derivado de sua destreza estilística, não é anódino em sua obra; pelo contrário, ajuda a torná-la fascinante.

Há o compromisso com a verdade, conforme pede a cartilha do realismo, mas não abandona a fantasia; há a observação da sociedade e o uso da escrita como veículo comunicador com potencial de alcance. Há toda a criatividade de quem enxerga o mundo diferentemente.

Há acidez com os míopes e abastados; há ironia aos “lacaios do pensamento” e bajuladores; há a comiseração, os conflitos e tragicomédia da gente pobre. Há o objeto simbólico para coser críticas e desenvolver panoramas das diversas castas da sociedade.

 

Talvez o seu fracasso como ator não tenha sido suficiente para que, analogamente, ele deixasse de encarnar diferentes personas por meio do papel. O escritor precisa, como o autor, entender o quanto o homem é esférico e, ao mesmo tempo, anguloso para conseguir esculpi-lo, quando assim for necessário, seja em pedra ou gesso; representá-lo sobre o palco de um teatro ou em praça pública; ou perfilá-lo, como é o caso do escritor, que canaliza, pelo registro gráfico, o que abarca o homem.

Diário de um louco – a ótica do louco

 

“Casa de Orates” inscreve o primeiro capítulo de O Alienista, de Machado de Assis, ao contar como Simão Bacamarte consegue soerguer a sua Casa Verde (nome do manicômio fictício o onde são depositados os internos).

O conto Machadiano aponta para o perdão aos loucos, porque eles são seres limítrofes com garantia a um espaço no céu. Isso por não ser legado a eles o arbítrio; pela falta deste, todos os acintes desse gênero de pessoas são ingênuos e sem nenhuma razão que designe perdão e culpa.

Segundo a legislação brasileira, os loucos são considerados incapazes ou relativamente capazes de decidir por si e pelos outros. Porém, acredita-se que entre a realidade e a imaginação existe uma linha tênue que só é denunciada aos olhos dos artistas – é o caso de Edgar Allan Poe, que migrava da realidade à fantasia, constante e majoritariamente, em seus contos e poemas.

Há casos, porém, em que a clarividência do escritor é pungente a ponto de endoidecê-lo. Ocorreu a Hemingway, durante a sua vida, esbanjar-se em uísque porque está aí um remédio que server aos homens de muita verve que não conseguem suportar os cataclismos da vida.

E quando ele teve de encará-la na velhice, já em profunda depressão, resolveu pôr um ponto final naquela conjunção de períodos a que havia assistido ao longo dos anos, disparando uma bala de uma espingarda de caçar elefantes na cabeça.

 

Também está impregnada em Gógol a autodestruição; para mim, ele, facilmente, pode ser considerado um “escritor maldito” de sua época, que jogou sobre a sua obra o véu do humor. Diz-se em uma passagem de O Retrato: “Os grandes artistas, embora impregnados na natureza, dela se distanciam para recriá-la. Esta, sem dúvida, a melhor frase que sintetiza o artista Gogoliano.

Ele próprio fazia esse exercício, já que viajava por vários países da Europa, estendendo sua estada por até três anos no estrangeiro; depois retornava de seu exílio sabático e registrava as suas impressões sobre pessoas, lugares e costumes.

 

O conto Diário de um louco nasceu de uma dessas abstrações do artista. É interessante analisar o paradoxo que nos é oferecido nessa obra. Porque ao mesmo tempo em que o escritor consegue transmitir os sintomas de demência que se agravam no protagonista, conforme a narrativa avança, ele também cria um dos personagens literários cuja observação é uma das mais agudas e certeira de todos os tempos.

Um observador sem par, que, obcecado pelo chefe da repartição onde trabalha, procura nas correspondências da cachorra de sua filha – daí talvez seja o começo de seus delírios – informações pessoais sobre a tal família a que pertence a cachorrinha.

 

“Eu acho que dividir opiniões, sentimentos e impressões com outras pessoas é a maior felicidade do mundo”, adiante, ele faz um comentário a esta frase escrita pela cadelinha numa carta a outro cão: “Hum! Essa ideia foi tirada de uma obra traduzida do alemão. O título me escapa”. O autor atribui, além da humanidade, um caráter político às missivas lidas:“Ah, até que enfim! Eu bem sabia que eles (os cachorros) tinham opinião política sobre todas as coisas…”.

 

A intertextualidade nesse conto, especificamente, é utilizada para fabular pensamentos crus do autor sobre o meio social de Petersburgo:

“… a minha senhorita Sofia (dona) esteve hoje no maior dos alvoroços. Ia a um baile e eu fiquei contente porque na ausência dela podia te escrever. Minha Sófia sempre morre de alegria quando vai a bailes, embora quase sempre se zangue enquanto se veste. Eu, ma chére, não consigo entender de modo algum como se pode ter prazer em ir a um baile. Sófia chega dos bailes às seis da manhã, e, por sua aparência pálida e delgada, eu quase sempre percebo que lá não deram de comer à pobrezinha. Confesso que eu nunca poderia viver assim. Se não me dessem molho de perdiz ou cozido de asas de galinha assada… Não sei o que seria de mim. Gosto ainda de molho de trevo. Mas cenoura, nabo ou alcachofra, isso nunca vai ser gostoso”.

O narrador continua: Estilo extremamente desigual. Logo se vê que não foi gente que escreveu. Começa como manda o figurino, mas termina em cachorrada. Vejamos mais uma cartinha. Esta é meio longa. Hum! Está sem data”.

A palavra cachorrada”, descrita acima, é ambígua, pois designa o modo como está escrita a carta e também o “modus operandi” da elite da época.

 

Em outros pontos do texto, torna-se ainda mais engraçada a caracterizações da burguesia do generalato do império. Há pontos em que os homens de status, enquanto pretendentes e galanteadores das damas de alta classe, são comparados à categoria dos caninos. A humanização da cachorrinha serve como suporte às suas críticas, que quase sempre remetem às classes mais abastadas da sociedade.  

Diário de um louco pode ser considerada um dos textos mais marcantes de Gógol. Ali está impressa toda sutileza, toda argúcia e sofisticação no juízo da obra, a farsa na leveza e comicidade de suas frases.

 

A partir da leitura da carta, em que o narrador se vê citado nas linhas grafadas pela cadelinha, a história muda de direção. O louco, depois de ter acesso a informações da família do general, se revolta. Quer acabar com o casamento entre a filha do chefe e um cadete.

Ele acredita que é o rei da Espanha – ele se desloca de sua vida miserável, como funcionário público paupérrimo, abandona o real para se projetar no mundo imagético da loucura. Se cotejarmos as duas partes, vê-se que a primeira possui elementos fantásticos. Toda crueza é fabulosa, deriva da realidade, mas veste o véu da fantasia; depois do enfeixe, a segunda é muito mais concreta.

A clarividência do começo do texto se fecha em névoa plúmbeas. A construção do conto, paulatinamente, nos leva a experimentar o agravamento da loucura. O narrador agora é rei. Todos os elementos continuam sutis. Nada é dito claramente, o que conduz a história é a contextualização, a atmosfera descrita pelo autor.

 

Paulo Bezerra, no apêndice do livro O Capote, da editora 34, cita que este texto marcou a história da literatura Russa, porque até a época, nenhuma publicação havia abordado a loucura como ocorre em Diário de um louco. Além disso, o tradutor e crítico literário afirma que essa foi a maneira que o autor encontrou para criticar as manifestações da sociedade Petersburguense:

“Gógol procura mostrar que os costumes dominantes da Rússia de Nicolau I são antinaturais”. Em seguida, Paulo arremata: “A justaposição das duas camadas do real – as relações políticas e sociais da Rússia de Nicolau I e a realidade do louco Popríschin – alimenta a estrutura biplanar da novela e consagra o Fantástico como modalidade de representação adequada do mundo real”.

 

O contexto da época em que Gógol escreveu esse texto é nebuloso. O sistema era intolerável a pensamentos liberais, e qualquer manifestações que fosse de cunho “político” poderia culminar em morte. A imprensa era cerceada pelo regime imperioso de Nicolau.

Era necessário ser sutil. Nenhuma crítica poderia ser alardeada. Aí, pode-se dizer, flagramos a genialidade do escritor ao publicar um texto como este, em que ele brinca com o real, caçoa da condição humana daqueles indivíduos do XIX. O despojamento do autor provou ser uma arma imune à ditadura e à mão de ferro da cúpula do império.

 

O porquê de ele estar louco parece permanecer incógnito, mas crê-se que a crise nevrálgica da personagem seja consequência do meio em que ele vive – é uma crise social; ele próprio (o narrador) discrepa de todos à sua volta. E o que mais assusta é que, apesar da dista dos séculos, essa é uma realidade permanente.

Não nos abandona com passar das décadas, não esmorece nem se fortalece. É apenas permanente. Como pode um louco analisar melhor do que qualquer pessoa que se diz capaz o espaço e o tempo em que está inserido (pergunta).

 

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