O Homem das Multidões

Testemunha ocular anônima do jardim das almas mortas

Resenha: O homem das multidões de Edgar Allan Poe
4 de junho de 2018 Marcello Mello

“Descendo na escala do que se chama distinção, encontrei temas para especulações mais profundas e mais sombrias”, disse o narrador de O Homem das Multidões , de Edgar Allan Poe. Neste texto, Poe usa mais uma vez a observação para tentar enxergar o que ninguém vê no comportamento do homem que faz parte de uma multidão. A solidão e a apatia são consideradas agentes da comunidade moderna. Leia o texto abaixo para entender como Poe analisa a relação entre indivíduo e sociedade.

______________________________________________________________________________

O homem das multidões – Testemunha ocular anônima do jardim das almas mortas

Autor mostrou, por meio de sua obra, o mal-estar do indivíduo na sociedade moderna do XIX

Imagem ilustrativa da capa e contra capa do livro - Historias Extraordinarias de Edgar Allan Poe, publicado pela Companhia das Letras - Livro do qual foi extraído o conto - O Homem das Multidoes - cujo texto baseia essa resenha. 

(Edgar Allan Poe – O homem das multidões – ADQUIRA O SEU)

 

Não sei dizer quando foi a primeira vez em que li os textos de Poe, mas estes sempre deflagram em mim certas punções que se manifestam viva e morbidamente, dependendo do conteúdo trazido à luz pela sua pena. O dínamo que movimenta o homem, individualmente, e a sociedade é massivo, às vezes, extenso em sua obra. Talvez este seja o escritor moderno cujas publicações sejam as mais proverbiais. Ele formou uma legião de asseclas – Hemingway, Machado de Assis, Fernando Pessoa -, fossem eles caudalosos, fossem eles sucintos e econômicos no estilo, todos o tiveram como referência no ofício da palavra.

Porém, suas obras vão além de qualquer rótulo. Parafraseando Nelson Rodrigues, o gênio, em tudo, enxerga o óbvio. E se todo o terror ensejado nos escritos de Poe fosse obviedade que, por vezes, aborda o mal-estar do indivíduo em sua época, numa sociedade que se jactava por sua independência precoce e pela emancipação do pensamento liberal (pergunta); mal-estar cujo reflexo alcança, invariavelmente, grupos e tribos de uma sociedade norte-americana míope e ufanista. Ninguém parecia ter a mesma clarividência de Poe.  Muitos problemas registrados por ele parecem fenômenos atávicos, como se fossem copiados por várias gerações até os dias de hoje. Por isso os seus textos são necessários. A maioria dos contos de Poe se torna, automaticamente, indelével a toda sua população de leitores, porque, apesar de a linha entre o imaginário e o real ser tênue, os temas de suas histórias são populares. O Gato Preto, por exemplo, traz a carga lúgubre e, ao mesmo tempo, cotidiana, de um homem que amava os animais e a esposa, mas que se torna, depois de graves crises de alcoolismo, sorumbático e violento.

Quem nunca se deparou com situações terríficas como essa (pergunta). Basta assistir aos noticiários para flagrar diversos elementos e circunstâncias que, facilmente, serviriam em outra época de farta matéria para escritores, no Brasil, como João do Rio, e nos Estados Unidos, como Edgar Allan Poe. Esses dois, inclusive, compartilhavam muitas parecenças. Ambos eram Flaneurs, os dois acreditavam que todo texto deve ser criado com carga superlativa de apuração e dedução. Não à-toa se notam circunstâncias tão telúricas impressas em suas exegetas.

Poe é necessário nos dias de hoje, assim como diversos outros escritores cujas obras serão resenhadas e pulicadas neste espaço. Porque devem ser requestadas da literatura as mesmas perguntas que, comumente, são feitas à filosofia, à política, à economia e à antropologia – a todas as ciências humanas. Enxergar uma sociedade por uma ótica submetida ao olhar de um escritor não é romanceá-la, mas, sim, decifrá-la. Significa entender seus códigos de ética e conduta por meio de personagens e circunstâncias fictícias. Porque, por mais fantástica que seja uma história, nela são encontráveis toda espécie de elementos mundanos, que nascem da crença e do hábito humanos.

Sociedade e o homem sem rosto na comunidade moderna

Quando puxamos da estante de livros o conto O Homem das Multidões , de Edgar Allan Poe, compreendemos que temos nas mãos uma crítica profunda sobre o mal-estar do indivíduo na sociedade. O autor afirma, nas primeiras linhas, já se ter dito “judiciosamente” que em certo texto alemão há a frase “não se deixa ler”. E, num segundo momento, escreve que “há alguns segredos que não consentem em ser ditos”. Descreve-se, depois disso, uma circunstância: um homem que, em seu leito de morte, desespera-se e convulsiona devido à “hediondez de alguns mistérios que não toleram ser revelados”. Diz-se, adiante, que a consciência, muitas vezes, suporta uma carga absurda de horror que só pode evadir-se na sepultura. E, desta forma, a essência de todo o crime permanece incógnita e “irrevelada”.

Neste primeiro parágrafo, o autor diz ao leitor que há coisas entre o céu e a terra que talvez sejam demasiadas para a compreensão humana. Após relatar o episódio terrífico do moribundo terminal, apresenta-se o personagem que irá conduzir a narrativa, em primeira pessoa. Este inicia uma investigação, cujo alvo é o desconhecido. E as únicas ferramentas que ele tem à mão, num primeiro momento, são a dedução e a observação.

Num fim de tarde outonal, olhando para a janela da sacada de um hotel em Londres, o narrador começa a perscrutar os perfis das pessoas que passam pela rua; fala sobre seus comportamentos fleumáticos em meio à multidão que os cerca. A solidão não é exclusividade apenas da personagem principal, mas de todos os espectros que matizam o texto. E o que mais assombra, realmente, é a apatia, a indiferença glacial ante os encontrões e os abalroamentos – situações de que os partícipes se despedem apenas com algumas abanadas na lapela e um grave ajuste de postura.

O homem à janela que observa e designa os tipos de cada transeunte que passa pela calçada, para mim, não é o protagonista. Em vez disso, a personagem principal, pode-se dizer, é imaterial, é a ótica pela qual ele enxerga circunstâncias que denunciam esses sujeitos em vários aspectos – um deles é a solidão. Outro é o mal-estar geral de pertencer a um organismo “gregário” e em constante conflito com as suas unidades. É como se as pessoas nas ruas fingissem total desconhecimento do par que as acompanha; travestidas por uma falsa aparência de status, que jamais dará a dimensão real daquele ser.

É, conforme a epígrafe do texto, “a grande desgraça de não poder estar só” (Ce grand malheur de ne pouvoir être seul – tradução livre). Esse é o objeto, é o que enseja a sua investigação – o paradoxo por ser parte e todo ao mesmo tempo.

O autor faz saltar do tinteiro expressões vívidas. O panorama é um sobejo literário que abarca todas as instâncias da sociedade. Veem-se ali, andando apressadamente, o mais escasso e humilde e outros mais abastados. O texto é sofisticado e repleto de filigranas narrativas. O leitor se vê preso a gestos e reações tão reais que se cria um enquadramento quase cinematográfico, que faz com que haja apropriação da ótica do narrador em cada palavra escrita por Poe.

Mas a sociedade e o mal-estar que esta gera aos seus próprios indivíduos são os elementos que ajudam a construir todo o cenário da obra até o fim. Depois de discorrer sobre as características de diversas figuras na rua, da sacada do café, o enredo passa por uma reviravolta. E torna-se quase possível, a partir disso, sentir a névoa desfazendo-se em chuva. Ver a luz do sol crepuscular lutando com os raios dos lampiões a gás, que ascendem na escuridão que ganha espaço, lançando ali uma luz espasmódica. Inicia-se uma mudança brusca no cenário.

“A noite caíra por completo e um nevoeiro espesso e úmido pairava sobre a cidade, acabando por desfazer-se em pesada e contínua chuva. Esta mudança de tempo teve um estranho efeito sobre a multidão, toda a qual, imediatamente, agitou-se de novo, ocultando-se sob quantidade enorme de guarda-chuvas. A ondulação, o acotovelamento e o burburinho aumentaram dez vezes mais. De minha parte, não me incomodei muito com a chuva, pois o resto de uma velha febre, no meu organismo, tornava a umidade algo bem perigosamente agradável.”

Assim se manifestam a transformação do ambiente e a do narrador da história que sente o desconforto da febre antes de promiscuir-se; antes de infiltrar-se e de tornar-se parte daquele conjunto fleumático em que vive desgraçadamente sem poder estar só. Porém, inserir-se significa submeter-se a situações desconfortáveis e prejudiciais a sua própria condição, apesar de a umidade, segundo foi apontado, parecer “algo bem perigosamente agradável” para ele.

Junto a essa série de registros e observações, surge mais um personagem. É um homem, decrépito, “de uns sessenta e cinco ou setenta anos de idade”. Aquela figura vetusta é descrita como “encarnações pictóricas do diabo”. É difícil dizer o que é uma imagem que tenha essas atribuições diabólicas, mas seria incrível imaginar que esta pode ser a personificação de todo o péssimo sentimento que circunda o indivíduo e a sociedade. É como se esse mal-estar fosse humanizado; como se recebesse membros, olhos, roupa, um diamante e um punhal. É como se ele detivesse segredos místicos; como se a sua presença galvanizasse tudo ao redor.

Este personagem confrange tudo. Os ambientes se transformam, as pessoas se agitam. Ele nunca para de andar. Ambos, narrador e decrépito, percorrem todos os arrabaldes da cidade. Eles não se cansam. Afinal, a sociedade ou o mal que ela gera também não para. Continua sistematicamente a funcionar em série. A individualização mitiga, quando não dirime, todo contato entre semelhantes, enfraquecendo os laços sociais. O homem velho não tem a consciência de que está sendo seguido. Ele não dorme, nunca descansa. É movido por um motor que nos traga, deglute e dejeta.

O próprio narrador, neste momento, assume estar à cata do desconhecido. Já perto do desfecho, caçador e caça se encaram com fleuma, como se estivessem parados ante um obstáculo, não um homem. Ali não há humanos; há pirâmides de carne; semoventes sonâmbulos; mortos-vivos e zumbis. “Este homem é o tipo e o gênio do crime profundo. Recusa estar só”, diz o observador vendo o personagem que o fascinara ir embora, sumindo na multidão. Em nenhum momento os dois chegam a ter um vínculo maior do que um arrostamento. Eles permanecem absortos e acelerados, e aquela maré de gente permanece incansável e solitária, movimentando com a turba o mal-estar da civilização.

0 Comentários

Deixar uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

*