Carta ao Pai

A Lógica no absurdo de Kafka

Resenha: Carta ao pai de Franz Kafka
13 de junho de 2018 Marcello Mello

Kafka está no pináculo da literatura universal. Em Carta ao Pai, o autor desvela a relação entre indivíduo e autoridade na sociedade. O escritor, ao mesmo tempo em que critica a imagem do patriarca, também aponta para os problemas – não apenas de sua geração, mas de toda instituição familiar –, que perduram até os dias atuais.

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Carta ao pai – A Lógica no absurdo de Kafka

Carta também faz analogia sobre a reação de indivíduo ante a autoridade na sociedade

 

 

Imagem ilustrativa da capa e contra capa do livro - Carta ao Pai de Franz Kafka, publicado pela Editora L&PM Pocket - Livro cujo texto baseia essa resenha.

(Carta ao Pai de Franz Kafka – ADQUIRA O SEU)

 

Em algumas comunidades, a autoridade das altas instâncias se reflete, muitas vezes, nos hábitos e costumes individuais. É como se, partindo de uma visão hierárquica, um chefe brigasse com o seu subordinado, e este transferisse o reproche a outro, que possui um cargo somenos ao dele, até que isso se torna, inclusive, um problema de classe, onde os mais abastados julgam e punem os mais carentes. Vivemos sob a tutela de um governo parcialmente democrático. Algumas pessoas, cornucópias individuais do sistema, imitam o comportamento das instâncias elitizadas e transmitem isso aos “lacaios”, inconscientemente. A absorção de ideias eugênicas ou que sejam absolutas e restritivas nos dão a prova da autoindulgência irrefletida do homem ante a própria perpetração com os seus. Franz Kafka, tcheco, e autor de carta ao pai, revelou-se um observador agudo ao, sem querer (provavelmente), desvelar, nesse cartapácio, problemas que faziam parte de uma geração inteira que fora marcada pelo caráter excessivamente autoritário. Aí está um gênero irritável de bardo (contador de histórias, na Grécia antiga): enxergar coisas complexas como se fossem simples de ser explicadas. Os gênios são tradutores incansáveis do caos. São Édipos ante o enigma da esfinge. Salvam-nos de nós próprios muitas vezes, mas a sua maior ocupação talvez seja apontar na “banalidade” verdadeiros transtornos e convulsões do comportamento humano. O indivíduo, facilmente, pode ser identificado como o símbolo do macro – algo como a noz e o universo de Shakespeare. É no homem comum, por este ser uma engrenagem do sistema, onde começa a investigação da funcionalidade da máquina. É uma das pontas da vida ou de sua dinâmica. Particularmente, somos reflexos proporcionalmente diminutos do que ocorre no ambiente – somos, analogamente, neste exemplo, se isolados para um estudo de alguns hábitos que são reproduzidos pela maioria, a biópsia de um tecido imenso, formado por unidades semelhantes, que convergem e confluem ao mesmo tempo.

Kafka não foi apenas um gênio. Foi além: via lógica no absurdo. Sabia reconhecer a anomalia capaz de alterar essa célula, por meio dessa biópsia de que falamos; reconhecia o que há de mais sombrio no homem quando este se esquece de sua herança animalesca. Descobriu que somos seres ainda mais ínfimos do que outras espécies da cadeia alimentar. Talvez porque tenhamos perdido o que nos sobrou dessa primitiva consciência.  Talvez porque compartilhemos o esquecimento e a grosseria como sinceridade. E a violência em vez da justiça. E ele entendia a ideia de culpa em relações tão próximas, forjadas por laços tão estreitos de parentesco. Em Carta ao Pai, é quase impossível dizer que o conteúdo é, exclusivamente, pessoal. Vê-se ali uma análise. Descobre-se toda sensibilidade do escritor pelo traço delicado das palavras que mostra a sua ótica de mundo. As frases do texto parecem ter sido vomitadas ao papel. Todas têm um impacto praticamente imediato para quem as lê: o desconforto, a premência ante o pai (que também pode ser analisado, simbolicamente, como um absolutista, um rei, um déspota), as restrições, as punições, que eram democráticas (a única democracia encontrável na autoridade é a punição) e cujas vítimas redundavam entre filhos e empregados de sua “tenda”; tudo isso pode transformar essa imagem patriarcal num Estado, onde preside a distopia, que, em vez de Grande Irmão, de Orwell, chamaríamos “Querido pai”, devido ao modelo de missiva que aplicamos ao caso como exemplo. E facilmente, a criança – o próprio Kafka – poderia representar a célula atrofiada que enfrenta essa figura imensa que a força a viver sob sua sombra; espera segurança e recebe despotismo; aguarda ansiosamente por afagos e fica ao relento, à mercê do meio ao qual pertence; espera justiça e recebe direitos de “um rei sentado em sua poltrona”.

Essa carta é quase uma ode ao conflito de gerações: como se a mais nova se correspondesse, rancorosamente, com a que lhe gerou. É como se dissesse o quanto padece por ser uma figura oriunda daquela outra, velha e detestável, e como é horrível ouvir tantas admoestações por sentimentos supostamente ateus (Kafka confessa em sua carta que frequentava a sinagoga mais por “respeito ao pai” que por afirmação religiosa), por reclusão assumida (que foi consequência dos métodos tiranos de sua educação), por uma conspiração feita entre irmãos, por se afeiçoar a amigos que não correspondessem às necessidades de uma família comum e cercada por retas, em todos os lados, a formar um quadrado. Ambas brigam por um espaço. A mais velha condena a insuficiência da mais nova. Mas historicamente nunca houve cordata entre uma e outra. As mais recentes quase sempre vão se mostrar como rebeldes a quem os precede e, ao mesmo tempo, vão admirá-los e sacudi-los para o alto, até que a desordem convenha em ser ordem.

Então outras virão e tomarão o seu lugar, recusando conselhos e advertências, sendo mais uma vez rebeldes e subvertendo ideais que se diluirão mais uma vez para – quem sabe – ressuscitar numa próxima.

Invariavelmente, a visão de Kafka sobre o mundo mira uma figura repleta de traços abstratos, cujas parecenças servem a todo tipo de despotismo graças a sua acuidade ao descrever a personalidade desse homem, que é comparável a um rei, a um dono de escravo a um coroado sentado atrás de uma escrivaninha. A parte pelo todo.

 

A universalidade das frases, imbuídas de significação cáustica, pode constantemente ser encontrada no texto: “Representaste para mim todo o mistério que possuem todos os tiranos, cuja razão se funda em sua pessoa e não no pensamento. Ao menos assim me parecia”. Mais adiante, ele continua:

“Os ossos não podiam ser separados com os dentes; por ti, sim; o vinagre não podia ser sorvido; por ti, sim. O principal era cortar o pão em fatias retas, mas era indiferente que tu o fizesses com a faca que picava salsa. Era preciso ter o cuidado de caírem migalhas ao chão; ao término, a maior parte delas estava debaixo de ti. Na mesa somente era permitido apenas ocupar-se com a comida. Mas tu cortavas e limpavas as tuas unhas, apontava os lápis, fazia a limpeza das orelhas com palitos de dentes”.

Esses são fatos, cujo significado, facilmente, pode migrar da unidade para a coletividade, se os relativizarmos. Várias sutilezas são observáveis entremeadas nos vincos da banalidade. Veem-se migalhas ao chão, mas além disso, nota-se todo controle do provedor, sentado à ponta da mesa, praticando todas as “atrocidades” psicológicas possíveis, mantendo o ambiente privado apenas para si. É como se pelos demais nada pudesse ser manifesto. É como se o privilégio de sentarem-se à mesa fosse suficiente para substituir a interação e a fruição dos alimentos:

“Por isso eu dividia o mundo em três partes: uma, onde eu vivia, o escravo, regido por leis inventadas exclusivamente para mim, às quais, além do mais, e não sei por que, não podia adaptar-me completamente; depois, um segundo mundo, infinitamente afastado do meu, no qual vivias tu, ocupado em governar, distribuir ordens e aborrecer-se porque não eram cumpridas; e, por fim, um terceiro grupo, onde vivia o povo livre e alegremente, sem ordem nem obediência”.

Outro problema flagrado por Kafka está relacionado à maneira como desenvolvemos a linguagem em ambientes onde falta um arejar de ideias para que possa haver construções frasais, para que não haja o bloqueio de códigos e que a condução da narrativa seja o auxílio e a conversa. A impossibilidade de uma relação custou a Kafka uma atrofia vocálica ao se expor por palavras; conforme ele próprio diz no texto: “Desaprendi a falar”. Isso, à sociedade, também é muito caro, porém escasso. É interessante analisar como a premência pode atrapalhar o desenvolvimento de uma pessoa em relação ao espaço onde está nucleada.

“Dizias: ’Nem uma  palavra de protesto!, e com isso querias silenciar em mim as forças contrárias que te eram desagradáveis, mas essa influência era muito poderosa para mim, eu era demasiado obediente, emudeci de maneira total, escondia-me de ti e apenas me atrevia a mover-me quando estava tão afastado que teu poder, ao menos diretamente, já não me atingia’.”

É difícil a tarefa de selecionar frases nos textos de Kafka, pois nos dá vontade de reproduzi-las integralmente, tal como foram concebidas.  As analogias sutilmente colocadas nos textos descrevem cenas ambíguas, aplicáveis ao cenário mais realista da relação de curadoria entre pai e filho que sofre uma metamorfose, tornando-se, metaforicamente, um desabafo de cidadão para a uma figura despótica, grave, severa e mais imponente:

“À proporção que crescia, ia aumentando o material que podias apontar como demonstração de minha inutilidade; paulatinamente, em certos aspectos, começaste a ter razão. Mais uma vez procuro afirmar que não cheguei a ser assim por causa de tua influência: apenas acrescentava aquilo que já existia, mas o acrescentavas demais, pois eras muito poderoso diante de mim e empregavas todo o teu poder”.

“Apenas a irreflexão de tua ira podia desculpar-te em alguma coisa.” Frases pungentes são constantemente deitadas ao papel. Kafka possui uma mão delicada e um espírito, apesar de embotado, ferino. A sua destreza ao descrever sentimentos com tanta clareza dá também a prova do teor moderno que ele trouxe a seus textos.

Em diversas circunstâncias, ele se coloca como um operário, e seu pai, quase em todas as imagens discorridas, surge no apogeu da vida doméstica como um homem robusto, esbanjador de saúde e vigor, um orador sem par, um homem exemplar – um busto na sala de estar. Qualquer personalidade menos sensível, conforme diz o próprio Kafka, talvez abstraísse dessa figura paterna uma cartilha de ensinamentos. Ele sentiu os erros e conflitos que surgiram ao longo dos anos com mais intensidade.

Por isso, pode-se afirmar que o artista que nos legou essa matéria tão extensa sobre a relação pai e filho consegue ver lógica no absurdo. Os fenômenos se constroem e criam contornos sobre os acontecimentos, aparentemente, mais ínfimos e corriqueiros; não há bem ou mal, as suas justificativas são ou parecem ser apuradas pela maneira pela qual ele analisa o mundo, imparcialmente.  Ninguém foge à ira do Homem Kafkiano, o progenitor. O próprio autor, em seu texto, coteja as relações íntimas e sociais da pessoa, que em tudo representa a tirania:

“Chamava a teus empregados de ‘inimigos pagos’; e o eram; porém, ainda antes de o ser, me parecias agir como seu ‘inimigo que paga’. Ali também recebi a lição importante de que podias ser injusto”.

Este trecho mostra a migração da autoridade para outros espaços, como se esta fosse onisciente, estivesse impregnada em todos os lugares e jamais nos abandonasse; e, além disso, carregasse uma carga de corrupção e abuso de poder (a corrupção nasce primeiro da força, afinal, usá-la para se locupletar também pode ser uma forma de usurpação). Todos sentem a sua ira. Ninguém escapa de seus reproches, ninguém suporta seu rosto ou o que representa a sua função na escala social: um homem que dispende extrema força sobre os seus detrás de uma mesa.

Toda vez em que o autor se depara com a imagem desse Homem, mesmo quando ocorre uma tentativa de fuga, ele (Kafka) fica inerte, não consegue seguir adiante. Como se ele estivesse acostumado a uma vida constantemente guiada sob o estalo de um chicote. Não há meios de mirar outros horizontes, porque suas forças foram, amiúde, tão dinamitadas que ele já se considera muito pouco para estar no mundo sozinho. Há um vínculo de dependência. Como se já fosse tarde para recomeçar, ou começar, a pedir e receber perdão; a desvencilhar-se daquela imagem, forçando a disruptura do cordão umbilical indestrutível que há entre os dois. Há o sepultamento de um abutre na sombra de um Hércules. Nem a religião o pode salvar. Já que esta não servia para trazer paz para si, mas, sim, a seu pai. Ele orava pela salvação alheia, ele rezava, e caso ele renunciasse à imagem de Deus, veria indubitavelmente a de seu pai.

“Quem era capaz de fazer brotar em mim uma chispa de interesse?” O ensino interessava-me (e não somente ele, mas também tudo quanto me rodeava nessa idade decisiva) mais ou menos como interessa ao empregado desonesto de um banco (que está ainda desempenhando o cargo e treme pensando que será descoberto) a atividade insignificante de bancário que deve ainda realizar como funcionário.”

Assim ele retrata, perfeitamente, por meio desta metáfora a sua relação de indivíduo- mundo. Ele é um subordinado na relação que vive com o pai, sem conseguir se desgarrar de sua imagem ubíqua (a submissão entremeia-se em todos os seus livros de ficção, mas, por meio deste documento, vê-se que essa característica era uma argamassa que impregnava as lacunas de seu laço afetivo no núcleo familiar). Certos cordões jamais serão rompidos. A carta é também um último pedido, cheio de esperança, para que os dois possam se reconciliar. É uma bandeira branca que jamais foi entregue. A beleza no texto de Kafka está em sua capacidade de fazer com que fenômenos, aparentemente, anódinos, sublimem e se transformem numa coincidência divina que desnudam nossas interações cotidianas.

 

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