O Alienista

Obra destrincha, além da loucura, problemas inerentes à sociedade; crítica permanece atual até os dias de hoje

Resenha: O Alienista de Machado de Assis – Pt. I
13 de julho de 2018 Marcello Mello

O Alienista , de Machado de Assis, diverge muitos críticos quanto à categoria a qual pertence esta obra, se ao conto ou à novela. Há, porém, muito mais do que isso em seu texto: trata-se aqui de uma das críticas mais contundentes já feitas ao cientificismo e ao poder. Como observador ladino, o escritor deixa ao leitor um de seus maiores legados, repleto de humor e sofisticação.

 

 

 

O Alienista permanece atual devido à visão contemporânea e ferina sobre a sociedade de seu tempo

Obra Machadiana destrincha, além da loucura, problemas inerentes à sociedade; crítica permanece atual até os dias de hoje

 

Imagem ilustrativa da capa e contra capa do livro - O Alienista de Machado de Assis, publicado pela Penguin & Companhia das Letras - Livro do qual foi extraído o conto baseia essa resenha.

 

(O Alienista de Machado de Assis – ADQUIRA O SEU)

 

 

O alienista na obra de Machado de Assis não é apenas o insigne cientista de Itaguaí. Da mesma forma que esta cidadela, neste contexto, também não é só o que diz o escritor por meio das páginas deste conto.

 

Uma peculiaridade em sua obra é que ele desafia o leitor a enxergar um discurso invisível, que sublima detrás do texto gráfico e emerge apenas em nossas consciências.

 

Devemos saber ler o que está escrito atrás dos caracteres para entender o quanto é exorbitante e ferina a palavra cuidadosamente selecionada em sua obra.

 

Itaguaí é um universo abreviado; o alienista é um médico quase onisciente – é o dedo em riste da ciência e da justiça; nós somos os alienados.

 

Eu poderia ter poupado o advérbio “cuidadosamente”, mas esta é a razão pela qual muitas pessoas o adotam como escritor, e outras o rechaçam. Postumamente, muitos críticos do começo do século XX o consideraram mediano.

 

Consideravam que em seu texto havia muitas filigranas narrativas, um excesso de pompa ou talvez um preciosismo. Claro que não esqueceram de sua importância para literatura brasileira ao ser o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, cuja cadeira é a 23.

 

Porém, esperou-se muito tempo para perceber que a antologia machadiana não tratava apenas de uma nobreza morna do segundo império. Só mais tarde os estudiosos entenderam a preciosidade e sutileza de sua obra. Por quase quarenta anos, seus críticos e conterrâneos o relegaram à obsolescência dos medíocres.

 

Provavelmente, os seus textos, tão extemporâneos à sua época, permanecessem incógnitos se o homem não tivesse vivido diversas guerras e revoluções, cujo reflexo fora projetado em todas as esferas sociais.

 

O alienista não é uma alegoria restritiva; é uma narrativa atemporal que abarca problemas da sociedade brasileira que vigoram até os dias atuais.

É um recurso, velado pelo humor e pela ironia, para explicar como ideias extremamente positivistas e cientificistas podem ser nocivas a um tecido social imenso, cujos átomos (nós próprios) se perdem atônitos.

 

Alienista, etimologicamente, designa a pessoa que trata de alienados. A personagem machadiana, Simão Bacamarte, possui mais do que os caracteres de um homem.

 

Pode-se dizer que ele é uma paródia personificada do homem racional, da idealização incoerente do perfeito.

 

O problema de toda perfeição é que, para ela ser admirada como tal, necessitam-se o imperfeito e o inferior. Representa também a mão de ferro da política. Era um senhor absoluto por reter conhecimentos diversos; por ser laureado pelas melhores universidades da Europa.

 

Torna-se, afinal, evidente que uma sociedade que não pensa, fica à mercê de qualquer figura que detenha o discurso da hegemonia. Uma cadeia científica, cujo o suposto detentor de todo conhecimento seja o mais forte em sua comunidade. Uma cadeia alimentar corporativa.

 

 

Da chegada de o alienista à rebelião do barbeiro Porfírio

 

A chegada de Simão Bacamarte à Itaguaí representa uma conjunção de novas ideias, que singrou os mares atlânticos, e aportou no Rio de Janeiro, migrando, em seguida, para a pequena província, vizinha à capital brasileira, quando no segundo império.

 

Bacamarte é uma mistura de pensamentos ensejados no núcleo intelectual do mundo à época – a Europa – condensado em carne e osso; ou seja, humanizado.

Sua mulher pertencia a um padrão que não corresponde à idealização de beleza da época em que a história é contada; mas “o homem da ciência”, segundo conta a história, não se prende a futilidades, mas a condições anatomicamente suscetíveis à procriação.

 

Trata-se de um personagem que foi fundido na forja da nobreza. Além disso, como fora recorrente no séc. XIX, mais tarde diplomara-se em Coimbra e Pádua, ou seja, nas universidades “de Portugal e das Espanhas”.

 

Este dado se torna relevante porque será criada uma área de autoridade sobre Bacamarte ao longo da história, o que reforça ainda mais sua influência sobre os alienados. Mas quem seriam estes alienados? Somos nós.

 

Descobre-se que toda a comunidade, num determinado momento, sofre com o peso de sua mão de ferro; de sua paixão científica.

Há algo acima dos homens, na história, um poder soberano que sobrevive a manifestações, posses e derrubadas de governos, sejam eles legítimos ou espúrios, é a razão como meio de moralização.

 

Mais evidente do que o cientificismo intelectivo, talvez seja o cientificismo político parodiado na obra.

O personagem, se desconstruído, desvelaria ideologias que à época ainda eram incipientes, por isso nebulosas.

 

A metamorfose ou o período de maturação de Simão Bacamarte tem quatro estágios. O primeiro, aparentemente, se manifesta como uma vocação precocemente encarnada da própria ciência.

No segundo, há uma expansão na forma de observar a sua teoria, estendendo o estudo não só aos loucos de todo gênero, mas a qualquer pessoa que mostre o mínimo de desequilíbrio.

 

A terceira é ainda mais genérica: em vez de abrigar aqueles que antes mostravam alguma disfunção no comportamento social (por menor que esta fosse), adstringem-se à casa verde todos aqueles que não tiveram nenhuma manifestação de loucura; ou seja, aqueles que exercem plenamente suas faculdades.

O quarto ocorre quando este considera que todos foram curados, ao pretensamente alterar o comportamento dessa comunidade de maneira terrífica no método e na imposição, até que ele próprio decide se estudar e se tranca em sua Casa de Orates.

 

Os eixos de virada, porém, estão explícitos no texto; os elementos que os compõe como denso repertório velado pelo humor e ironia são a parte do legado machadiano. Porque, a partir disso, manifestações extremamente comuns de nossa funcionalidade, enquanto unidades vivas de um tecido social, começam a surgir.

 

Veem-se corrupção, extorsão, abuso de poder, traição, etc. É como se, por meio da contextualização e da habilidade como escritor, ele conseguisse tornar concretos os temas mais abstratos que circundam toda nossa comunidade até os dias de hoje.

 

Divergem vários críticos quanto à autenticidade de conto ou novela, já que ainda não conseguiram consentir quanto à categoria a que essa possa ser atribuída. Uma das críticas mais contundentes para este leitor trata dos impostos cobrados para que a ideia do alienista seja engendrada:

“A matéria do imposto não foi fácil achá-la; tudo estava tributado em Itaguaí. Depois de longos estudo, assentou-se em permitir o uso de dois penachos nos cavalos dos enterros. Quem quisesse emplumar os cavalos de um coche mortuário pagaria dois tostões à câmara, repetindo-se quantas vezes esta quantia quantas fossem as horas decorridas entre a do falecimento e a da última benção na sepultura”.

 

Como quase todos os textos do autor, a crítica é latente, não está registrada explicitamente em palavras, mas, sim, contextualizada. É possível projetar o que está grafado no papel – uma benesse, um fornecimento do bem público mal-ajambrado que o locupletou. É um texto imagético.

 

E no recorte sugerido acima vemos importância debitada num homem, à época, considerado relevante para quase todas as castas de sua sociedade devido aos seus direitos congênitos (o de sua linhagem) e adquiridos (os diplomas das universidades).

 

Todos esquecem das “atrocidades” perpetradas por Bacamarte, porém ninguém parece ter argumentos suficientes para uma sublevação que seja, realmente, efetiva e libertadora à população de Itaguaí.

 

Além disso, é notável também a relação estreita e, ao mesmo tempo, odiosa entre a ciência, como um estatuto inexorável, e a religião, representada pelo padre Lopes. Ambos são obrigados a se suportar por serem, segundo o texto, as duas instituições mais fortes em Itaguaí, além da câmara, neste momento da narrativa.

 

Uma relação de conveniência é denunciada ali. Até porque, antes da chegada de Simão Bacamarte até ali, a única autoridade, depois do poder do Estado, era a igreja ou o padre, conforme a personificação feita no conto.

 

Outros elementos de crítica, tirados do corão, são utilizados para apontar outros tipos de alienação, como o fato de a sociedade de Itaguaí se deixar dominar por Bacamarte, um sábio de falsas ideias.

A ignorância se torna uma benção quando nos tira a noção de nossas práticas. Na história, cria-se ainda uma analogia referindo-se à “Casa de Orates” como um espaço que, dubiamente, sugere que não sirva só aos loucos, mas também aos socialmente abilolados:

“Como grande arabista, achou no Corão que Maomé declara veneráveis os doidos, pela consideração de que Alá lhes tirem o juízo para que não pequem”.

 

Adiante, comparam-se grandes nomes históricos e filosóficos, como Sócrates, Pascal, Maomé, Caracala, Domiciano e Calígula. A ironia, neste trecho, torna-se cada vez mais vigorosa. Estes são homens que, antes de serem comparados aos supostos “loucos” da história, assemelham-se muito mais ao próprio alienista.

 

Historicamente, são figuras que representam escolas do conhecimento, da religião, da política e da autoridade. Estas se parecem muito mais com o médico Bacamarte do que com qualquer outro personagem coadjuvante.

Afinal, é ele quem, messianicamente, dispensa todas as propostas oferecidas por el-rei para ir para Itaguaí instituir todas as suas doutrinas científicas.

 

É ele quem faz vigorar uma ideia positivista e tirânica naquela comunidade.

 

Antes de prosseguirmos com a resenha desta história, é importante registrar algumas informações que talvez esclareçam a sua importância na literatura não apenas brasileira, como mundial.

Começava a ser propalada, em diversos países da Europa, o positivismo político, de Auguste Comte, que professava que todo Estado deveria ser regido por uma autoridade intelectual. Um homem, cujos conhecimentos fossem acima da média.

Essas idealizações ensejaram, mais tarde, manifestações ideológicas totalmente enviesadas, como o nazismo, de Hitler, e o fascismo, de Mussolini. Ambos os governos beberam em fontes, cujos conceitos concebidos no séc. XIX, mais tarde, submetidos pelos regimes dos dois ditadores, tornaram-se uma cartilha eugênica, cujo resultado foi o genocídio.

Engana-se quem pensa que essas ideias eram inerentes apenas a esses dois países. Do Brasil a Rússia, praticamente em todos os rincões do mundo havia pensamentos, cuja gênese era a mesma à dos líderes, respectivamente, Mussolini e Hitler.

 

O séc. XIX concebeu o cientificismo, o séc. XX o aplicou, deixando para as gerações futuras uma fuligem ideológica que perpetua, indelevelmente, na história.

 

Machado de Assis, porém, já criticava essas proposições, ou a gênese de tais ideias, em seu tempo, quando ainda se buscava fecundar nos tecidos políticos e sociais da época a matéria germinal para modelos políticos que sobreviveram até o século presente.

 

O que explica a viagem de D. Evarista para o Rio de Janeiro, em que ela pede para que a acompanhe (pergunta). A formação de uma comitiva patrocinada com o dinheiro de Bacamarte. À Casa Verde, porém, entravam mais e mais supostos enfermos.

 

O povo tentava falar, mas todos se calavam sob a determinação do protagonista, muito escolado, detentor de todo conhecimento das Américas e da Europa; a câmara se fazia surda, cega e muda, deixando de deliberar pelo povo, preservando cada um o seu cargo e a sua liberdade que poderia ser usurpada a qualquer momento por Simão Bacamarte.

 

Com isso, diz-se que da mesma maneira em que ocorrem as quatro reviravoltas da história, as quais já foram enumeradas acima, sendo essas a acepção e encarnação da ciência, a expansão da teoria, o alienamento dos não alienados e a auto alienação das práticas cientificistas; da mesma forma, ao longo da história, há outras circunstâncias que colocam a idoneidade do médico em xeque.

 

Se formos elencar, poderíamos determinar, que o primeiro item está relacionado, não só a concepção da Casa Verde, mas também ao enriquecimento por meio dos gastos públicos.

 

O segundo, a um deslocamento da própria imagem do alienista em frente a pessoas que praticam o que para ele é impraticável, ou, como foi dito acima, por uma inveja aventada ou sugestionada.

 

O terceiro, a manifestação de ciúme, velada pelo interesse científico. Até aqui as sanções podem ser todas consideradas morais, mas no decorrer da história, as ocorrências abarcam cada vez mais o grupo social, fazendo suscitar a cada deliberação do protagonista consequências avassaladoras para a sua comunidade.

 

Seu texto permeia também alguns assuntos religiosos; pode se levar em conta que ele trata aqui de pecados, antes capitais ou morais, do que científicos.

 

A luxúria, a inveja, a avareza, a traição… Tudo são sintomas apontados pelo Alienista, porém, estes mesmos “pecados” são facilmente encontráveis no próprio protagonista.

 

O político parece um ser que entretém. Uma figura caricatural. E o que mais espanta é o retrato tão hodierno dessa categoria de cidadão. Em uma das inúmeras vezes em que Bacamarte se utiliza de seu conhecimento para exercer a tirania, conta-se o caso de um político que se opusera ao protagonista, quando este peticionava a criação da Casa Verde.

O político fora recolhido ao manicômio, porém, segundo as descrições do autor, este trecho da história é quase alegórico pelo seu influxo de ironia:

“Por exemplo, um dos vereadores – aquele que justamente mais se opusera à criação da Casa Verde, – desfrutava a reputação do perfeito educador de cobras e macacos, e aliás nunca domesticara um só desses bichos; mas, tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses”.

 

Adiante, o narrador emenda: “E dizem as crônicas que as pessoas afirmavam ter visto cascavéis dançando no peito do vereador; afirmação perfeitamente falsa, mas só devido à absoluta confiança no sistema. Verdade, verdade; nem todas as instituições do antigo regime mereciam o desprezo do nosso século”.

 

De fato, este é um personagem que enxergava nos outros o que ele não conseguia enxergar em si próprio.

 

A prisão do albardeiro é uma das mais empolgantes do texto. O caso do indivíduo que enriquecera devido aos seus consertos de albardas. Isto foi suficiente para que ele comprasse uma das casas mais suntuosas de Itaguaí, que fosse até maior do que a de Orates, do alienista.

 

Sempre motivado pela ciência, este interessa-se pela contemplação do homem, que, pela manhã senta à frente da propriedade para admirá-la e, à tarde, repete a prática, porém, para que os transeuntes que passam na rua sintam inveja de sua conquista ao adquirir o patrimônio.

 

Em nenhuma linha do texto, lê-se uma frase relacionada à inveja, porém, nota-se a acuidade do autor ao adiante lançar ao texto uma de suas mais finas ironias: “Mas não se pode dizer que Itaguaí fosse feio; tinha belas casas, a casa do Matheus (albardeiro), a Casa Verde”.

 

Por detrás de todo autoridade existem razões humanas, por mais que estas sejam egoístas ou embotadas por algum ranço ideológico, para justificar suas ações.  Mais adiante, prende-se um rapaz, segundo a história, muito garboso e metido a ser poeta que galanteia D. Evarista, consorte de Bacamarte:

“Pobre moço! Pensou o alienista. E continuou consigo: – trata-se de um caso de lesão cerebral; fenômeno sem gravidade, mas digno de estudo”.

Um caso de ciúme. Ele realmente se enxergava como um paladino da perfeição. Há um verniz nobre sobre Bacamarte que o aparta dos demais. Evidentemente, existe nele uma ironia. Ele apenas aceita internar-se quando uma plêiade de outros cientistas diz que enxerga nele o símbolo pleno da razão.

 

Apesar de todas as mazelas perpetradas ao longo de toda história, por fim, o problema pelo qual ele, como homem da ciência, tanto saiu à cata, terminou por vencê-lo com uma dúvida:

“ Mas deveras estariam eles doidos e foram curados por mim, – ou o que pareceu cura, não foi mais do que a descoberta do perfeito desequilíbrio do cérebro (pergunta)”.

 

Não é nenhum bom senso de humanidade o que faz amolecer o coração do médico, mas sim, a colocação de si próprio como objeto de estudo. Ele segue resoluto quanto às suas convicções mesmo quando a constatação foge de seus poderes alcançá-la.

 

Machado de Assis não perde o tom ferino, apesar da sofisticação de seu texto. A crítica é contínua da ironia.

 

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